Outliers em Teste A/B: quando cortar a cauda longa
Outliers de receita: um cliente sozinho pode inventar uma vitória de 50 por cento por usuário. Como usar capping sem trocar um viés por outro.

📚 Este artigo faz parte do guia Significância Estatística em Teste A/B: O Guia.
Métricas de receita por usuário são fortemente assimétricas, e a média é o resumo mais frágil que existe para uma distribuição assim. Um único cliente, um outlier de receita, move a média de um braço inteiro em dezenas de por cento sem que nada tenha acontecido com o produto. Este guia cobre um exemplo trabalhado em que um comprador corporativo inventa uma vitória de 50 por cento sozinho, a regra de bolso publicada pela equipe do Bing para saber quantos usuários a sua métrica realmente precisa, por que o piso de poder e o piso de normalidade são dois pisos diferentes, como escolher um teto sem transformar capping em manipulação, e o que capping definitivamente não conserta. Faz parte do nosso guia completo de teste A/B e conversa diretamente com métricas de razão.
A média não aguenta a sua distribuição de receita
Taxa de conversão é uma métrica bem comportada: cada usuário contribui com zero ou um, a variância é limitada e o teorema central do limite chega rápido. Receita por usuário não tem nenhuma dessas propriedades. A maior parte dos usuários contribui com zero, a maioria dos compradores contribui com pouco, e uma minúscula fração contribui com valores centenas de vezes maiores que a média.
O tamanho disso não é uma impressão. Kohavi, Deng, Longbotham e Xu relatam que, num site de comércio, a assimetria da métrica de compras por cliente passava de 10 e a de receita por cliente passava de 30. No Bing, a receita por usuário tinha coeficiente de assimetria de 17,9. Para efeito de comparação, uma distribuição simétrica tem assimetria zero, e a regra de bolso dos autores só é acionada quando o módulo da assimetria passa de 1.
Exemplo trabalhado: uma compra que inventa 50 por cento
Um comércio B2B roda um teste com 60.000 usuários por braço. O comportamento real é idêntico nos dois lados: a mudança testada não afetou compra nenhuma. Cada braço acumula R$ 240.000 em receita, dando uma média honesta de R$ 4,00 por usuário.
Só que um usuário do braço B é um comprador corporativo que colocou um pedido único de R$ 120.000. Não é fraude, não é robô, não é bug: é uma venda real que aconteceria de qualquer jeito.
| Braço | Usuários | Receita total | Receita por usuário |
|---|---|---|---|
| A, controle | 60.000 | R$ 240.000 | R$ 4,0000 |
| B, tratamento, com o pedido corporativo | 60.000 | R$ 360.000 | R$ 6,0000 |
| Diferença medida | R$ 120.000 | mais R$ 2,0000, mais 50,00 por cento |
Uma vitória de 50 por cento em receita por usuário, produzida por 1 usuário em 120.000. Se o pedido tivesse caído no braço A, o mesmo experimento teria produzido uma derrota de 33,3 por cento. O resultado do teste foi decidido por um sorteio que nada tem a ver com o produto.
Agora o mesmo experimento com um teto de R$ 200 por usuário, definido antes e aplicado igualmente nos dois braços:
| Braço | Receita total limitada | Receita por usuário limitada |
|---|---|---|
| A, controle | R$ 240.000 | R$ 4,0000 |
| B, tratamento | R$ 240.200 | R$ 4,0033 |
| Diferença medida | mais R$ 0,0033, mais 0,08 por cento |
A leitura correta apareceu: não houve efeito. E o que aconteceu com a receita real da empresa? Nada. Os R$ 120.000 entraram no caixa. O que o teto fez foi impedir que uma venda que teria acontecido de qualquer forma fosse creditada à mudança de produto.
A régua de Kohavi: 355 vezes o quadrado da assimetria
Se a média demora a ficar normal, o intervalo de confiança que a calculadora imprime não vale o que promete. A pergunta prática é: quantos usuários bastam? Kohavi, Deng, Longbotham e Xu publicaram uma regra de bolso direta no KDD 2014, derivada do trabalho de Boos e Hughes-Oliver: o número mínimo de observações independentes e identicamente distribuídas para que a média tenha distribuição aproximadamente normal é de 355 vezes o quadrado do coeficiente de assimetria, por variação. Eles recomendam aplicar a regra sempre que o módulo da assimetria passa de 1.
A tabela que eles publicaram com métricas reais do Bing, junto do resultado que a fórmula devolve quando refeita à mão:
| Métrica do Bing | Assimetria (módulo) | 355 vezes o quadrado | Amostra publicada | Sensibilidade a 80 por cento de poder |
|---|---|---|---|---|
| Receita por usuário | 17,9 | 113.746 | 114 mil | 4,4 por cento |
| Receita por usuário, limitada | 5,2 | 9.599 | 9,7 mil | 10,5 por cento |
| Sessões por usuário | 3,6 | 4.601 | 4,70 mil | 5,4 por cento |
| Tempo até o sucesso | 2,1 | 1.566 | 1,55 mil | 12,3 por cento |
A conta refeita reproduz a tabela publicada dentro do arredondamento do coeficiente de assimetria, e o salto entre a primeira e a segunda linha é o argumento inteiro do capping em um número: a mesma métrica, limitada, precisa de doze vezes menos usuários para que a média seja confiável.
Dois pisos diferentes, e vale o maior
Aqui está a confusão que faz times subestimarem a duração de um teste. A calculadora de tamanho de amostra responde a uma pergunta de poder: quantos usuários para detectar um efeito de tamanho X. A regra dos 355 responde a uma pergunta de validade: quantos usuários para que a matemática do intervalo de confiança faça sentido. São pisos distintos e independentes, e você precisa passar nos dois.
Rode o piso de poder para a sua métrica binária de conversão:
Cálculo por aproximação normal de duas proporções, 2 variações (50/50). Mexa nos campos e veja o impacto ao vivo.
Com uma base de 5 por cento e um efeito mínimo detectável de 10 por cento relativo, a 95 por cento de confiança e 80 por cento de poder, saem 31.234 usuários por variação. Se o seu teste também acompanha receita por usuário com assimetria perto de 18, o piso de normalidade dessa métrica sozinho é de 113.746 por variação. O teste que você acha que dura duas semanas dura sete, e quem dita isso é a métrica de receita, não a de conversão.
| Piso | O que ele responde | Exemplo | Valor |
|---|---|---|---|
| Poder | consigo detectar o efeito que me interessa | conversão de 5 por cento, MDE de 10 por cento relativo | 31.234 por variação |
| Normalidade | o intervalo de confiança significa o que diz | receita por usuário, assimetria 17,9 | 113.746 por variação |
| Decisão | vale o maior dos dois | 113.746 por variação |
Kohavi e colegas acrescentam uma recomendação barata que ajuda de graça: garantir que controle e tratamento tenham o mesmo tamanho. Com divisão 50 contra 50 e distribuições parecidas, a distribuição da diferença fica aproximadamente simétrica, e a assimetria deixa de ser o problema que era. Divisões desiguais custam mais do que parecem, e a checagem disso é o assunto de divisão desigual de tráfego.
Como escolher um teto sem virar manipulação
A diferença entre método e manipulação está inteira no procedimento, não no valor do teto.
- Escolha o teto antes do experimento, a partir de dados históricos, nunca olhando o resultado. Kohavi e colegas relatam ter limitado a receita por usuário do Bing em 10 dólares por usuário por semana; a assimetria caiu de cerca de 18 para cerca de 5, e com o mesmo tamanho de amostra a métrica limitada passou a detectar uma mudança 30 por cento menor que a métrica sem limite.
- Aplique exatamente o mesmo teto aos dois braços. Teto assimétrico não é análise, é escolha de vencedor.
- Fixe uma janela junto do valor. Dez dólares por usuário por semana é diferente de dez dólares por usuário por experimento. Sem janela declarada, o mesmo teto vira mais restritivo em testes longos.
- Reporte as duas métricas. A limitada decide, a bruta acompanha. Quando as duas discordam de forma grande e persistente, isso é informação: significa que o efeito está concentrado na cauda, e a decisão de negócio pode ser diferente da decisão estatística.
- Diga qual pergunta você está respondendo. A métrica limitada fala do cliente típico. Ela não fala da receita total da empresa, e apresentá-la como se falasse é o único jeito real de mentir com capping.
Uma alternativa ao teto rígido, quando a cauda é o produto e não o ruído: em vez de limitar, reduza a variância por outros caminhos. CUPED usa dados pré-experimento para tirar variação que não tem nada a ver com o tratamento e costuma dar ganho de sensibilidade sem tocar em nenhum valor observado.
O que capping não conserta
Teto é uma ferramenta contra valores legítimos e extremos. Ele não é, e não substitui, limpeza de dado sujo.
Robô ainda precisa ser tratado como robô. Crook, Frasca, Kohavi e Longbotham fazem a distinção com cuidado no artigo do KDD 2009: se o tráfego de robô se distribui entre as variações de forma não enviesada, ele adiciona ruído e reduz o poder do experimento, mas não invalida o resultado; robô que reseta cookie ou roda de várias máquinas aparece como vários usuários distintos e também não gera viés. O caso perigoso é o robô que age como um usuário só e gera tráfego de forma consistente para uma única variação, porque aí ele pode tornar aquela variação estatisticamente melhor sem que nenhum humano tenha preferido nada. Eles relatam um caso no portal MSN em que robôs aceitavam cookies e executavam JavaScript, disparando eventos de clique a cerca de 100 por minuto durante 2,5 horas.
Defeito de medição continua defeito. Se a diferença nasce de quanto do comportamento foi registrado, e não do comportamento, nenhum teto resolve. Esse é o assunto de viés de instrumentação, e o sintoma clássico é métrica pré-gatilho desbalanceada.
Efeito concentrado na cauda não some porque foi cortado. Se a sua mudança de produto realmente faz clientes grandes comprarem mais, o teto vai esconder exatamente o efeito que interessa. Aí a resposta não é remover o teto no meio do teste, é declarar antes uma segunda métrica, por exemplo receita entre grandes contas, e dimensionar o teste para ela.
Checklist de outliers antes de olhar a média
- Qual é a assimetria da minha métrica principal? Se passa de 1, a regra dos 355 se aplica e provavelmente muda a sua estimativa de duração.
- Robô, teste interno e tráfego de monitoramento já foram removidos? Isso vem antes de qualquer decisão de teto.
- O teto foi definido antes, com janela, e vale para os dois braços?
- A métrica bruta e a limitada contam a mesma história? Divergência grande é informação, não incômodo.
- A divisão é 50 contra 50? É a correção mais barata disponível para assimetria.
- O maior dos dois pisos foi respeitado? Poder e normalidade são exigências separadas.
- Um único usuário consegue mudar a decisão? Se sim, você não tem um resultado, tem um sorteio. Refaça a média tirando o maior valor de cada braço e veja se a conclusão sobrevive.
Erros comuns
- Remover outlier depois de ver o resultado. É a forma mais comum de viés de análise, e ela sobrevive porque parece higiene.
- Confundir o cliente grande com dado sujo. Ele é receita real. Limitar a influência dele sobre uma média é legítimo; apagá-lo do relatório de receita não é.
- Usar a média sem olhar a mediana e os percentis altos. Nenhuma distribuição assimétrica se descreve com um número só.
- Aplicar teto só na métrica que está perdendo. Isso é escolher o resultado com um passo a mais.
- Achar que amostra grande resolve tudo. Resolve, mas a regra dos 355 mostra que a conta cresce com o quadrado da assimetria, e “grande” pode significar dez vezes o que o time imaginava.
Faça isso automático na Donnu
O problema do outlier não é matemático, é de sequência: quase sempre a decisão de teto é tomada depois de alguém ver um número estranho, e nesse ponto ela já não é mais uma decisão neutra.
Na Donnu, a métrica de receita chega com a assimetria calculada e com o piso de normalidade da regra de 355 exibido ao lado do piso de poder, para que a estimativa de duração já nasça pelo maior dos dois. O teto é um campo do desenho do experimento, preenchido antes de rodar e registrado no histórico, e o relatório mostra sempre a métrica bruta e a limitada lado a lado, com aviso quando as duas discordam. Se quiser refazer a conta de duração na mão, a calculadora de tamanho de amostra e a calculadora de duração aceitam os seus números.
Referências
- Kohavi, R., Deng, A., Longbotham, R. e Xu, Y. Seven Rules of Thumb for Web Site Experimenters. KDD 2014. Fonte da regra de 355 vezes o quadrado do coeficiente de assimetria como número mínimo de observações para a média ser aproximadamente normal, da recomendação de aplicá-la quando o módulo da assimetria passa de 1, da tabela com receita por usuário do Bing (assimetria 17,9, 114 mil usuários, sensibilidade de 4,4 por cento), receita limitada (5,2, 9,7 mil, 10,5 por cento), sessões por usuário (3,6, 4,70 mil, 5,4 por cento) e tempo até o sucesso (2,1, 1,55 mil, 12,3 por cento), do relato de que a receita por usuário foi limitada em 10 dólares por usuário por semana com queda da assimetria de cerca de 18 para cerca de 5 e ganho de sensibilidade equivalente a detectar uma mudança 30 por cento menor com a mesma amostra, dos valores de assimetria acima de 10 e acima de 30 no site de comércio, da derivação a partir de Boos e Hughes-Oliver, e da recomendação de manter controle e tratamento do mesmo tamanho. exp-platform.com.
- Crook, T., Frasca, B., Kohavi, R. e Longbotham, R. Seven Pitfalls to Avoid when Running Controlled Experiments on the Web. KDD 2009. Fonte da regra de que robô distribuído de forma não enviesada adiciona ruído e reduz poder sem invalidar o resultado, de que robô que reseta cookie ou roda de várias máquinas não gera viés, de que robô agindo como usuário único e consistentemente atribuído a uma variação cria viés significativo, e do caso no portal MSN com robôs disparando eventos de clique a cerca de 100 por minuto durante 2,5 horas. exp-platform.com.
- Deng, A., Knoblich, U. e Lu, J. Applying the Delta Method in Metric Analytics: A Practical Guide with Novel Ideas. KDD 2018. Referência sobre estimação de variância de métricas cuja unidade de análise não coincide com a unidade de aleatorização, situação em que a fragilidade da média a valores extremos se soma ao problema da razão. arxiv.org.
- Kohavi, R., Tang, D. e Xu, Y. Trustworthy Online Controlled Experiments: A Practical Guide to A/B Testing. Cambridge University Press, 2020. Capítulos sobre métricas, variância e tratamento de valores extremos em experimentos online. Material complementar em experimentguide.com.
Leia também: Métricas de razão · O que é CUPED · Viés de instrumentação · Métricas de guardrail · Calculadora de tamanho de amostra · Read in English
Perguntas frequentes
- O que é capping em teste A/B?
- É limitar o valor máximo que um único usuário pode contribuir para uma métrica antes de calcular a média. Kohavi, Deng, Longbotham e Xu relatam ter limitado a receita por usuário do Bing em 10 dólares por usuário por semana; a assimetria da métrica caiu de cerca de 18 para cerca de 5 e, com o mesmo tamanho de amostra, a receita por usuário limitada passou a detectar uma mudança 30 por cento menor do que a versão sem limite. O teto tem que ser decidido antes do experimento e aplicado de forma idêntica aos dois braços.
- Quantos usuários preciso para uma métrica de receita?
- Mais do que a conta de poder sugere. A regra de bolso publicada por Kohavi, Deng, Longbotham e Xu no KDD 2014 é de 355 vezes o quadrado do coeficiente de assimetria por variação, e eles recomendam usá-la sempre que o módulo da assimetria passa de 1. Para a receita por usuário do Bing, com assimetria de 17,9, isso dá cerca de 114 mil usuários por braço só para a média ficar aproximadamente normal, antes de qualquer consideração de poder estatístico.
- Capping não é manipular o resultado?
- É manipulação quando o teto é escolhido depois de ver os dados, ou aplicado a um braço só, ou trocado até o número ficar bonito. Não é manipulação quando o teto é definido antes do experimento a partir de dados pré-experimento, aplicado igualmente aos dois braços, documentado, e reportado junto da métrica sem limite. O que muda de verdade é a pergunta: a métrica limitada responde sobre o cliente típico, não sobre a receita total, e isso precisa estar dito.
- Um robô estraga a média de receita do experimento?
- Depende de como ele se distribui. Crook, Frasca, Kohavi e Longbotham são precisos nesse ponto: tráfego de robô espalhado pelas variações de forma não enviesada adiciona ruído e reduz o poder do experimento, mas não invalida o resultado; robô que reseta cookie ou roda de várias máquinas aparece como vários usuários e também não gera viés. O caso perigoso é o robô que age como um usuário só e gera tráfego de forma consistente para uma única variação, porque aí ele pode tornar aquela variação significativamente melhor sem que nenhum humano tenha preferido nada.
- Qual a diferença entre outlier e cauda longa legítima?
- Outlier é o valor que não deveria estar no conjunto: robô, teste interno, erro de instrumentação, pedido duplicado. Cauda longa legítima é o cliente corporativo real que comprou 30 mil reais de verdade. O primeiro se remove, e remover é a decisão certa. O segundo não se remove, porque é receita real da empresa; o que se faz é limitar a influência dele sobre a média, aceitando que a métrica limitada responde a uma pergunta um pouco diferente.