Estatística

Tamanho de Amostra para Métricas Contínuas

Tamanho de amostra para métricas contínuas como receita por usuário sai do coeficiente de variação, não da taxa de conversão. A fórmula e o erro comum.

Ilustração plana de duas bandejas rasas lado a lado, uma com muitos círculos pequenos e iguais em fileiras regulares e outra com poucos círculos grandes entre muitos minúsculos, em verde profundo e verde menta

O tamanho de amostra para uma métrica contínua, como receita por usuário, não sai da taxa de conversão: sai do coeficiente de variação da própria métrica, que é o desvio-padrão dividido pela média. Colocar a taxa de conversão numa calculadora de duas proporções e usar o resultado para dimensionar um teste de receita é o erro mais silencioso do dimensionamento, porque o número que sai parece razoável e está errado por um fator que você não vê. Este guia mostra a fórmula contínua, o exemplo trabalhado em que a mesma loja precisa de 487.847 usuários por variação para ler conversão e 761.217 para ler receita por usuário, a decomposição exata que explica a diferença, e o que capping e CUPED fazem com esse número. Faz parte do nosso guia completo de teste A/B e continua o raciocínio de quantos visitantes um teste A/B precisa.

Duas famílias de métrica, duas contas diferentes

Toda métrica de experimento cai em uma de duas famílias, e a família decide qual fórmula de amostra vale.

Uma métrica binária dá a cada usuário um de dois valores: converteu ou não converteu, clicou ou não clicou, voltou ou não voltou. A média dessa métrica é uma proporção, e a variância dela é determinada pela própria proporção: para uma taxa p, a variância por usuário vale p vezes 1 menos p. Não existe grau de liberdade aqui. Se você sabe a taxa, sabe a variância.

Uma métrica contínua dá a cada usuário um número que pode assumir muitos valores: receita, número de sessões, minutos de uso, itens no carrinho, tempo até a primeira ação. A média dessa métrica é uma média comum, e a variância dela é um parâmetro independente: duas lojas com a mesma receita média por usuário podem ter dispersões completamente diferentes, e por isso precisam de amostras completamente diferentes.

Essa é a raiz do problema. A calculadora de tamanho de amostra que todo mundo usa, inclusive a nossa, resolve o caso binário: você informa a taxa base e o efeito mínimo que quer detectar, e ela devolve o N por variação. Ela não tem como resolver o caso contínuo, porque falta a informação essencial, que é a dispersão. E como ela devolve um número sem reclamar, o número acaba sendo usado para justificar a duração de um teste cuja métrica primária é receita.

Métrica binária e métrica contínua: onde a variância nasceDuas colunas comparadas. À esquerda, a métrica binária: cada usuário vale zero ou um, e a variância é determinada pela taxa média, sem parâmetro livre. À direita, a métrica contínua: cada usuário vale um número qualquer, a maioria perto de zero e alguns muito grandes, e a variância é um parâmetro próprio que não sai da média. Abaixo de cada coluna, a informação que a fórmula de amostra exige: só a taxa no caso binário, taxa e desvio-padrão no caso contínuo.A conta de amostra muda porque a variância nasce em lugares diferentesmétrica bináriaCada usuário vale 0 ou 1. A variância por usuário é p vezes 1 menos p.A taxa determina a variância. Não sobra parâmetro livre.métrica contínuaCada usuário vale um número. A maioria perto de zero, alguns muito acima.A média não determina a variância. Falta o desvio-padrão.a fórmula exigetaxa baseefeito mínimo detectávela fórmula exigemédia e desvio-padrão (ou o quociente entre eles)efeito mínimo detectável
No caso binário a taxa carrega a variância junto. No caso contínuo a dispersão é informação nova, e ela é justamente a que ninguém tem à mão na hora de planejar o teste.

A fórmula contínua, em três formas

A conta de amostra para comparar duas médias em uma métrica contínua, sob aproximação normal e alocação igual entre os braços, é a mesma de sempre, só com a variância no lugar certo:

Forma 1, com o desvio-padrão e o efeito absoluto. O número de observações por variação vale 2 vezes o quadrado da soma dos dois valores críticos, multiplicado pela variância e dividido pelo quadrado do efeito absoluto que você quer detectar. Para 95 por cento de confiança bilateral e 80 por cento de poder, os valores críticos são 1,959964 e 0,841621, cuja soma ao quadrado dá 7,848880. Multiplicando por 2, a constante da fórmula é 15,697759.

Forma 2, com o coeficiente de variação e o efeito relativo. Dividindo em cima e embaixo pela média, a fórmula fica muito mais útil no dia a dia, porque quase todo mundo pensa em efeito relativo (“quero detectar 3 por cento a mais de receita”), não em efeito absoluto:

O N por variação é 15,697759 vezes o quadrado do coeficiente de variação, dividido pelo quadrado do efeito relativo. O coeficiente de variação é o desvio-padrão dividido pela média. Essa é a única forma da distribuição que entra na conta.

Forma 3, o caso binário como caso particular. Para uma métrica binária de taxa p, o desvio-padrão por usuário é a raiz de p vezes 1 menos p, e a média é p, então o coeficiente de variação vale a raiz de 1 menos p, dividida por p. Colocando isso na forma 2 você recupera exatamente a conta de proporções. Não são duas fórmulas, é uma só. O que muda é de onde vem o coeficiente de variação.

Amostra por variação em função do coeficiente de variaçãoCurva crescente que mostra quantas observações por variação são necessárias para detectar um efeito relativo de 3 por cento, em função do coeficiente de variação da métrica. A curva é quadrática: sai de cerca de 17 mil observações com coeficiente de variação 1, passa por 70 mil em 2, 157 mil em 3, 279 mil em 4, 436 mil em 5 e 855 mil em 7. Dois marcadores destacam os dois casos do exemplo trabalhado: a taxa de conversão, com coeficiente de variação 5,25 e 481 mil observações, e a receita por usuário, com coeficiente de variação 6,61 e 761 mil observações.Dobrar a dispersão relativa quadruplica a amostra, sempreEfeito relativo fixo em 3 por cento, 95 por cento de confiança bilateral, 80 por cento de poder.taxa de conversão: CV 5,25 e 481 mil por variaçãoreceita por usuário: CV 6,61 e 761 mil por variaçãoCV 1CV 2CV 3CV 4CV 5CV 6CV 717 mil70 mil157 mil279 mil628 milamostraporvariaçãocoeficiente de variação da métrica (desvio-padrão dividido pela média)
A curva é quadrática por construção: o coeficiente de variação entra elevado ao quadrado. É por isso que uma métrica de cauda longa custa uma ordem de grandeza a mais de tráfego do que a intuição sugere.

Exemplo trabalhado: a mesma loja, duas métricas

Uma loja tem taxa de conversão de 3,5 por cento e ticket médio de R$ 1.200, com desvio-padrão do valor do pedido de R$ 900. A receita média por usuário é 0,035 vezes 1.200, ou seja, R$ 42,00. O time quer detectar um ganho de 3 por cento relativo e roda com 120.000 visitantes por semana no fluxo testado.

Passo 1: a métrica de conversão, na calculadora

Comece pela conta que a calculadora resolve. Taxa base 3,5 por cento, efeito mínimo detectável 3 por cento relativo, 95 por cento de confiança, 80 por cento de poder, bilateral.

Calculadora de tamanho de amostra
-Visitantes por variação
-Total (2 variações)
-Duração estimada

Cálculo por aproximação normal de duas proporções, 2 variações (50/50). Mexa nos campos e veja o impacto ao vivo.

O resultado é 487.847 usuários por variação. Esse é o número certo para a pergunta “esse teste muda a taxa de conversão”.

Passo 2: o coeficiente de variação da receita por usuário

Agora a métrica de receita. A receita de um usuário é o produto de duas coisas: se ele comprou (uma variável binária com taxa p) e quanto gastou quando comprou (uma variável com média e desvio-padrão próprios). Dessa decomposição sai uma identidade exata para o coeficiente de variação da receita por usuário:

O quadrado do coeficiente de variação da receita por usuário é igual a 1 mais o quadrado do coeficiente de variação do valor do pedido, tudo dividido pela taxa de conversão, menos 1.

Nos números da loja: o coeficiente de variação do valor do pedido é 900 dividido por 1.200, ou seja, 0,75. Então o quadrado do coeficiente de variação da receita vale 1 mais 0,5625, dividido por 0,035, menos 1, que dá 43,6429. A raiz é 6,6063.

Vale conferir por outro caminho, porque a identidade é fácil de errar. Somando a variância pelo cálculo direto: a receita média por usuário é R$ 42,00 e a variância é 76.986,0, o que dá desvio-padrão de R$ 277,4635 e coeficiente de variação de 277,4635 dividido por 42, ou seja, 6,6063. Fecha.

Passo 3: a amostra da métrica de receita

Aplicando a forma 2 com coeficiente de variação 6,6063 e efeito relativo 0,03:

15,697759 vezes 43,6429, dividido por 0,0009, dá 761.217 observações por variação.

métrica coeficiente de variação N por variação dias a 120 mil por semana
taxa de conversão (calculadora) 5,2509 487.847 57
receita por usuário 6,6063 761.217 89
razão entre as duas 1,2581 1,56 vez +32 dias
Calculadora de duração de teste A/B
-Duração estimada
Visitantes no total-
Término previsto-

Aproximação normal de duas proporções, divisão igual entre as variações. A data usa o seu fuso e recalcula ao vivo.

Cole 761.217 no campo de amostra por variação, 2 variações e 120.000 de tráfego semanal para conferir os 89 dias. Depois troque para 487.847 e veja os 57. A diferença entre planejar o teste pela métrica errada e pela certa, nesta loja, é um mês inteiro de calendário.

Passo 4: por que exatamente 1,56 vez

A razão não é arbitrária, e ela sai da mesma identidade. Para a métrica de conversão, o quadrado do coeficiente de variação é 1 menos p, dividido por p, que aqui dá 27,5714 (coeficiente de variação 5,2509). Para a receita, dá 43,6429. A razão entre as amostras é a razão entre esses dois quadrados: 43,6429 dividido por 27,5714, ou seja, 1,5829.

Repare no caso limite, que é a melhor forma de checar se a intuição está certa: se todo mundo que compra gastasse exatamente o mesmo valor (coeficiente de variação do pedido igual a zero), o quadrado do coeficiente de variação da receita cairia para 1 dividido por 0,035, menos 1, ou seja, 27,5714, exatamente o valor da conversão. Faz sentido: sem dispersão no valor do pedido, a receita por usuário é a conversão multiplicada por uma constante, e multiplicar por constante não muda coeficiente de variação nenhum. Todo o excedente de amostra vem da dispersão do valor do pedido, e de mais nada.

desvio-padrão do valor do pedido CV do pedido CV da receita/usuário N por variação dias
R$ 0 (todos gastam igual) 0,000 5,2509 480.900 57
R$ 300 0,250 5,4182 512.046 60
R$ 600 0,500 5,8919 605.486 71
R$ 900 (o caso da loja) 0,750 6,6063 761.217 89
R$ 1.500 1,250 8,4979 1.259.559 147
R$ 2.400 2,000 11,9104 2.474.266 289

Uma nota sobre a diferença de 1,4 por cento

A linha de R$ 0 da tabela acima dá 480.900, e a calculadora deu 487.847 para o mesmo cenário. A diferença de 1,44 por cento não é erro: a fórmula contínua usa a variância sob a hipótese alternativa nos dois braços, enquanto a calculadora usa a forma agrupada, que estima o erro-padrão sob a hipótese nula com a média das duas taxas. A forma agrupada é ligeiramente mais conservadora e é a que a literatura de duas proporções adota. A diferença cresce com o efeito: é de 0,96 por cento com efeito de 2 por cento e de 4,81 por cento com efeito de 10 por cento. Em planejamento isso não muda decisão nenhuma, mas é bom saber de onde vem antes de acusar uma das duas de estar errada.

Quantos usuários a média precisa só para se comportar

Existe um segundo limite inferior, independente do cálculo de poder, e ele é ignorado com frequência: a fórmula acima assume que a média da métrica é aproximadamente normal. Para uma métrica muito assimétrica, isso exige bem mais usuários do que o “n maior que 30” dos livros introdutórios.

Kohavi, Deng, Longbotham e Xu propõem, na sétima regra de bolso do artigo de KDD 2014, o mínimo de 355 vezes o quadrado do coeficiente de assimetria por variação, recomendado quando o módulo da assimetria passa de 1. Eles publicam a tabela de métricas reais do Bing, e ela reproduz a regra ponto a ponto:

métrica do Bing módulo da assimetria amostra mínima relatada 355 vezes o quadrado sensibilidade a 80% de poder
Receita por usuário 17,9 114 mil 113.746 4,4%
Receita por usuário (limitada) 5,2 9,7 mil 9.599 10,5%
Sessões por usuário 3,6 4,70 mil 4.601 5,4%
Tempo até o sucesso 2,1 1,55 mil 1.566 12,3%

Os autores relatam ainda que, num site de comércio, a assimetria de compras por cliente passava de 10 e a de receita por cliente passava de 30. E fazem uma ressalva honesta que quase nunca é citada junto com a regra: se o controle e o tratamento têm a mesma distribuição e a divisão é igual, a distribuição da diferença fica aproximadamente simétrica (perfeitamente simétrica sob a hipótese nula), e aí a regra não dá um limite inferior útil, porque ela foi construída para o módulo da assimetria acima de 1. Nesse caso, quem manda é o cálculo de poder das seções anteriores. A regra de 355 é o alarme para o caso em que você lê cada braço separadamente, ou em que os braços não estão igualmente dimensionados.

Os dois limites inferiores de amostra e qual deles morde primeiroDois blocos empilhados. O bloco de cima representa o limite de poder, que cresce com o quadrado do coeficiente de variação e com o inverso do quadrado do efeito. O bloco de baixo representa o limite de normalidade da média, que cresce com o quadrado da assimetria pela regra de 355. Uma seta indica que o tamanho do teste é o maior dos dois números, nunca a média nem o menor.O tamanho do teste é o MAIOR dos dois limites, não o mais convenientelimite 1: poder estatísticocresce com o quadrado do coeficiente de variaçãocresce com o inverso do quadrado do efeitoresponde: consigo detectar o efeito que quero?limite 2: normalidade da médiacresce com o quadrado da assimetriaregra de 355 vezes o quadrado da assimetriaresponde: o valor-p que eu li vale alguma coisa?amostra do teste = o maior dos dois
Os dois limites respondem perguntas diferentes e não se substituem. Passar no de poder e reprovar no de normalidade produz um valor-p cuja calibração ninguém checou.

Três formas de baixar o número (e o que cada uma custa)

Se o número que saiu é grande demais para o seu tráfego, existem três alavancas legítimas. Todas mexem no coeficiente de variação, porque é ele que manda.

1. Limitar a cauda (capping)

Cortar valores acima de um teto derruba o desvio-padrão muito mais do que derruba a média, e é o quociente entre os dois que entra na conta. Kohavi, Deng, Longbotham e Xu relatam que limitar receita por usuário a 10 dólares por usuário por semana no Bing derrubou a assimetria de 18 para 5,3, e que para a mesma amostra a receita limitada detecta uma mudança 30 por cento menor que a receita bruta.

O custo é conceitual, não estatístico: a métrica limitada responde a outra pergunta. Você deixa de medir receita e passa a medir receita até o teto. Se o efeito que você está testando age justamente na cauda (upsell de item caro, por exemplo), o capping apaga exatamente o que você queria ver. O tratamento completo dessa decisão está em outliers e capping em teste A/B.

2. Reduzir variância com dado pré-experimento (CUPED)

Deng, Xu, Kohavi e Walker mostram que usar uma covariável medida antes do experimento reduz a variância por um fator igual a 1 menos o quadrado da correlação entre a métrica e a covariável. Eles relatam redução de cerca de 50 por cento na variância no Bing, o que eles descrevem como equivalente a dobrar o tráfego ou cortar a duração pela metade. Relatam também que a melhor covariável isolada é a própria métrica medida no período pré-experimento (mais de 45 por cento de redução no caso deles, contra 9 a 10 por cento usando só o dia de entrada, e ganho extra de apenas 2 a 3 por cento ao combinar as duas).

A ressalva mais importante deste artigo vem do mesmo estudo, e ela cai justamente sobre a métrica de que estamos tratando. Os autores relatam que CUPED funcionou bem em cliques por usuário e visitas por usuário, e que a exceção notável foi receita por usuário, onde a redução de variância ficou abaixo de 5 por cento, porque a correlação da receita por usuário entre o período pré-experimento e o período do experimento é baixa. Faz sentido: quem gastou muito no mês passado não é, em geral, quem vai gastar muito neste mês. A tabela abaixo mostra o que aconteceria com a amostra da loja em cada nível de correlação, e serve para dimensionar o ganho potencial. Ela não é uma previsão: para receita por usuário, a correlação observada no estudo do Bing ficaria na primeira linha da tabela ou abaixo dela. Meça a correlação na sua própria base antes de contar com qualquer uma destas linhas.

Aplicado ao exemplo da loja, com a amostra de 761.217:

correlação com a covariável fator de variância N por variação dias
0,5 0,750 570.913 67
0,6 0,640 487.179 57
0,7 0,510 388.221 46
0,8 0,360 274.039 32

O custo é de engenharia: exige guardar dado do período anterior por usuário e aplicar o ajuste na análise. E exige que o usuário exista antes do experimento, o que não vale para visitante novo. Detalhes em o que é CUPED.

3. Trocar a métrica primária

A alavanca mais barata e a menos usada. Se receita por usuário exige 89 dias e taxa de conversão exige 57, e se a hipótese do teste é sobre fricção no checkout (que age na conversão, não no ticket), a métrica primária honesta é a conversão, com receita como métrica secundária monitorada. Isso não é escolher a métrica que dá o resultado que você quer: é escolher a métrica em que o mecanismo que você está testando de fato age. A discussão de como fazer essa escolha sem se enganar está em métrica primária e OEC.

Métricas de razão são um terceiro caso

Existe uma família que parece contínua e não é nem uma coisa nem outra: métricas em que o denominador não é o usuário sorteado. Cliques por página, itens por sessão, receita por pedido. Nessas, cada usuário contribui com várias observações correlacionadas, e o erro-padrão calculado como se fossem independentes sai menor que o verdadeiro. A conta de amostra deste artigo continua valendo, mas o coeficiente de variação tem que ser o da métrica agregada por unidade sorteada, não o da observação individual. O tratamento correto é o método delta, coberto em métricas de razão em teste A/B, e a escolha de unidade que gera o problema está em unidade de sorteio em teste A/B.

Como estimar o coeficiente de variação antes do teste

Toda essa conta depende de um número que você precisa ter antes de começar: o coeficiente de variação da métrica no seu próprio dado. Ele não é um benchmark de mercado, é uma propriedade da sua base. Três formas de obtê-lo, em ordem de preferência:

  1. Calcular direto no histórico. Pegue as últimas 4 a 8 semanas, agregue a métrica por usuário na mesma janela que o teste vai usar, e calcule desvio-padrão dividido pela média. É o caminho certo e leva minutos em qualquer ferramenta de dados.
  2. Reconstruir pela decomposição. Se você só tem taxa de conversão e estatísticas do valor do pedido, use a identidade do passo 2: 1 mais o quadrado do coeficiente de variação do pedido, dividido pela taxa, menos 1. Precisa do desvio-padrão do ticket, não só da média.
  3. Rodar um teste A/A primeiro. Um teste A/A de duas semanas devolve a dispersão observada de graça, junto com a validação de que o sorteio está correto.

O que não funciona é adotar um coeficiente de variação “típico”. A dispersão de receita por usuário de uma loja de itens de R$ 30 e a de uma loja de móveis não têm relação nenhuma, e o número entra na conta ao quadrado.

Checklist antes de definir o tamanho de amostra

  1. Qual é a métrica primária, binária ou contínua? Se for contínua, a calculadora de proporções não responde.
  2. Você tem o desvio-padrão dela no seu próprio dado? Sem isso, o número que sair é chute com aparência de conta.
  3. A janela de agregação da estimativa é a mesma do teste? Coeficiente de variação de receita em 7 dias e em 28 dias são números diferentes.
  4. A assimetria passa de 1? Se passar, confira a regra de 355 vezes o quadrado dela, lembrando da ressalva de divisão igual.
  5. O denominador da métrica é a unidade sorteada? Se não for, é métrica de razão e precisa de método delta.
  6. Você calculou os dois números, conversão e receita? O teste dura o maior dos dois, e é bom saber disso antes e não depois.
  7. As alavancas de redução foram consideradas na ordem certa? Trocar a métrica primária é mais barato que capping, que é mais barato que implementar CUPED.

Erros comuns

Faça isso automático na Donnu

O erro caro aqui não é errar a fórmula, é nunca perceber que existiam duas. Uma métrica de receita entra no relatório ao lado de uma métrica de conversão, com a mesma cara, o mesmo intervalo e a mesma cor, e nada na tela diz que uma delas estava dimensionada e a outra não.

Na Donnu, cada métrica declarada em um experimento carrega a família dela, e o cálculo de poder é feito por métrica: uma métrica contínua exige a dispersão estimada da sua própria base, e o relatório mostra o poder efetivo que ela alcançou, não o poder que a métrica de conversão alcançou. Se você quiser refazer qualquer conta na mão, a calculadora de tamanho de amostra resolve o caso binário e a calculadora de duração traduz qualquer N em dias de calendário.

Referências

Leia também: Quantos visitantes um teste A/B precisa · Outliers e capping em teste A/B · O que é CUPED · Métricas de razão em teste A/B · Efeito mínimo detectável · Calculadora de tamanho de amostra · Read in English

Perguntas frequentes

Posso usar a calculadora de tamanho de amostra para medir receita por usuário?
Não diretamente. A calculadora de tamanho de amostra padrão resolve a comparação de duas proporções, ou seja, uma métrica binária como "converteu ou não". Receita por usuário é uma métrica contínua, e a variância dela não sai da taxa de conversão: sai do coeficiente de variação da própria receita. Use a calculadora para dimensionar a métrica de conversão e a fórmula contínua deste artigo para dimensionar a métrica de receita. Se o teste tem as duas, o tamanho do teste é o maior dos dois números.
O que é o coeficiente de variação e por que ele decide o tamanho da amostra?
O coeficiente de variação é o desvio-padrão dividido pela média. Ele mede a dispersão relativa da métrica, e é a única característica da distribuição que entra na conta de amostra quando o efeito é expresso em termos relativos. A fórmula é n por variação igual a 2 vezes o quadrado da soma dos dois valores críticos, multiplicado pelo quadrado do coeficiente de variação e dividido pelo quadrado do efeito relativo. Dobrar o coeficiente de variação quadruplica a amostra necessária.
Por que receita por usuário exige mais amostra que taxa de conversão no mesmo teste?
Porque a receita por usuário acumula duas fontes de variação: se a pessoa comprou (que é a variação da conversão) e quanto ela gastou quando comprou (que a conversão não tem). O quadrado do coeficiente de variação da receita por usuário vale 1 mais o quadrado do coeficiente de variação do valor do pedido, tudo dividido pela taxa de conversão, menos 1. Com conversão de 3,5 por cento e valor do pedido com coeficiente de variação 0,75, isso dá 1,583 vez a amostra exigida pela taxa de conversão para o mesmo efeito relativo.
Quantos usuários preciso para a média ser aproximadamente normal?
Kohavi, Deng, Longbotham e Xu propõem a regra de 355 vezes o quadrado do coeficiente de assimetria por variação, recomendada quando o módulo da assimetria passa de 1. Eles relatam que receita por usuário no Bing tinha assimetria 17,9 e portanto exigia 114 mil usuários só para a média se comportar como normal. Os próprios autores ressalvam que, com divisão igual entre controle e tratamento, a distribuição da diferença fica aproximadamente simétrica e essa regra deixa de dar um limite inferior útil; nesse caso quem manda é o cálculo de poder.
Cortar outliers reduz o tamanho de amostra necessário?
Reduz, porque cortar a cauda derruba o desvio-padrão mais do que derruba a média, e é o quociente entre os dois que entra na conta. Kohavi, Deng, Longbotham e Xu relatam que, ao limitar receita por usuário a 10 dólares por usuário por semana no Bing, a assimetria caiu de 18 para 5,3 e a mesma amostra passou a detectar uma mudança 30 por cento menor. O preço é que a métrica limitada responde a outra pergunta: você deixa de medir a receita total e passa a medir a receita até o teto que escolheu.
CUPED ajuda no dimensionamento de métrica contínua?
Ajuda, e é onde o ganho é maior. Deng, Xu, Kohavi e Walker mostram que a variância cai por um fator igual a 1 menos o quadrado da correlação entre a métrica e o covariável pré-experimento, e relatam redução de cerca de 50 por cento na variância no Bing, equivalente a dobrar o tráfego ou cortar a duração pela metade. Como a amostra é proporcional à variância, uma correlação de 0,7 corta a amostra necessária em 51 por cento. A ressalva importante vem do mesmo estudo: a exceção notável deles foi justamente receita por usuário, onde a redução ficou abaixo de 5 por cento por causa da baixa correlação da receita entre os dois períodos. Meça a correlação na sua base antes de contar com o ganho.