Teste A/B de Frete Grátis: Encontrando o Valor Ideal
Teste frete grátis: como escolher os limiares candidatos, qual métrica decide (não é conversão), quanto tráfego o teste exige e as guardas de margem.

📚 Este artigo faz parte do guia Otimização de Checkout: o Playbook de Teste A/B.
Um teste de limiar de frete grátis compara dois valores mínimos de pedido a partir dos quais a loja deixa de cobrar o envio, para descobrir qual deles entrega mais lucro por visitante. É um dos poucos testes de e-commerce em que a métrica óbvia (conversão) quase sempre aponta para o lado errado, porque o limiar mais baixo tende a converter melhor e a entregar menos margem. Este artigo faz parte do playbook completo de otimização de checkout e cobre como escolher os candidatos, qual métrica decide, quanto tráfego o teste exige e quais guardas impedem uma vitória falsa.
Por que o frete decide tanta compra
Custo extra é o motivo número um de abandono de checkout entre quem tinha intenção de comprar. Segundo o Baymard Institute, custos extras altos demais (frete, taxas e impostos) lideram com 40% das menções entre quem abandonou por algum motivo além de estar apenas navegando, à frente de entrega lenta demais (20%), desconfiança em passar o cartão (19%), exigência de criar conta (18%) e checkout longo ou complicado (17%). O mesmo instituto documenta uma taxa média de abandono de carrinho de 70,22%, calculada a partir de 50 estudos.
Isso posiciona o frete como uma alavanca de conversão de primeira grandeza, e é aí que mora a armadilha: como o frete pesa muito na decisão, é fácil concluir que “quanto menos frete, melhor” e zerar o limiar sem olhar a conta do outro lado. A pergunta certa não é se o frete grátis converte mais, ele quase sempre converte, é a partir de qual valor de pedido ele ainda paga a própria conta.
Teste de frete grátis: o limiar é um número, e números se testam
O erro conceitual mais comum é tratar frete grátis como um botão binário (tem ou não tem). Na prática, é um valor: acima de R$ X o cliente não paga envio. Esse X governa três coisas ao mesmo tempo:
- A taxa de conversão. Quanto mais baixo o limiar, mais gente atinge o benefício sem esforço, e maior a conversão.
- O ticket médio. Quanto mais alto o limiar, mais gente adiciona um item extra para alcançá-lo, e maior o valor médio do pedido.
- O custo de frete que a loja absorve. Quanto mais baixo o limiar, mais pedidos pequenos chegam com envio bancado pela loja, e menor a margem por pedido.
As três se movem em direções diferentes, e é exatamente por isso que a decisão não pode sair de uma métrica só.
Como escolher os limiares candidatos
Não escolha por número redondo. Escolha olhando a distribuição real dos valores de carrinho da sua loja nos últimos meses. O procedimento prático:
- Levante o histograma de valor de pedido (ou de carrinho, incluindo os abandonados) em faixas de R$ 20 ou R$ 25.
- Encontre a faixa onde a concentração é maior. É de lá que virá a maior parte do movimento.
- Posicione o limiar candidato logo acima dessa faixa densa, na distância que um item médio do seu catálogo consegue cobrir. Se o carrinho típico fecha em R$ 130 e o item médio custa R$ 45, um limiar em R$ 160 é alcançável com um item a mais; um limiar em R$ 260 não é.
- Escolha o segundo candidato do outro lado da faixa, para o teste medir uma diferença real de comportamento e não duas versões do mesmo valor.
| Sinal na distribuição de carrinho | Limiar candidato | O que esperar |
|---|---|---|
| Concentração alta logo abaixo do limiar atual | Manter o limiar e testar a comunicação dele | Ganho de conversão sem custo de margem, o teste mais barato dessa família |
| Concentração alta bem abaixo do limiar atual | Testar um limiar mais baixo | Conversão sobe, margem por pedido cai, decisão vai depender do lucro por visitante |
| Cauda relevante acima do limiar atual | Testar um limiar mais alto | Ticket médio sobe, conversão cai, e o risco é perder o cliente de compra pequena recorrente |
| Distribuição achatada, sem pico claro | Testar frete grátis sem limiar contra o atual | Hipótese legítima, mas entre com guarda de margem por pedido desde o primeiro dia |
Repare na primeira linha: em muitas lojas o teste com melhor relação entre esforço e retorno não é mudar o valor, é comunicar o valor que já existe. Uma barra de progresso mostrando “faltam R$ 23 para o frete grátis” no carrinho não muda a economia do pedido, muda quantas pessoas percebem que estão perto do benefício. Vale testar isso antes de mexer no número, porque o downside de margem é zero.
A métrica que decide não é a conversão
Este é o ponto que separa um teste de frete grátis bem lido de um mal lido. A conversão é a métrica que todo painel mostra primeiro e é a que quase sempre favorece o limiar mais baixo. O veredito honesto vem do lucro por visitante, que combina três números:
- taxa de conversão da variação,
- ticket médio (e, dentro dele, a margem bruta dos itens),
- custo de frete que a loja absorveu por pedido.
Uma variação pode vencer em conversão, perder em ticket médio e ainda assim ganhar no agregado, ou o contrário. A regra prática: decida pelo lucro por visitante, diagnostique pela conversão e pelo ticket médio. Se o seu painel não calcula lucro, a aproximação mínima aceitável é receita por visitante descontado o custo de frete absorvido, que já captura a maior parte do trade-off. A calculadora de receita por visitante ajuda a montar essa conta.
Uma ressalva estatística honesta: o teste de duas proporções que a calculadora de significância deste blog usa serve para taxas (quantos de quantos converteram). Ticket médio e receita por visitante são médias de valores contínuos, com cauda longa, e não devem ser lidos com o mesmo teste. Poucos pedidos muito grandes movem uma média sozinhos, e é comum uma diferença de ticket que parece expressiva desaparecer quando se olha a mediana. Trate a diferença de conversão com o rigor do teste de proporção e a diferença de ticket com a cautela de quem sabe que a média está sendo puxada por poucos pontos.
Dimensionando o teste
Ajuste a taxa de conversão atual da loja, o ganho mínimo que justificaria mudar o limiar e o tráfego semanal real:
Cálculo por aproximação normal de duas proporções, 2 variações (50/50). Mexa nos campos e veja o impacto ao vivo.
Um exemplo trabalhado com números reais
Uma loja converte 2,5% dos visitantes em pedido e recebe 30.000 visitas por semana. O time quer testar baixar o limiar de frete grátis de R$ 199 para R$ 149.
Se a ambição for detectar uma melhora relativa de 10% na conversão (de 2,5% para 2,75%), a 95% de confiança e 80% de poder, a matemática pede 64.199 visitantes por variação, o que com 30.000 visitas semanais leva 30 dias. Mirando 15% relativo (de 2,5% para 2,875%), o requisito cai para 29.193 por variação e o teste fecha em cerca de 14 dias. Como baixar o limiar é uma mudança grande na oferta, mirar 15% é uma escolha defensável; mirar 5% seria pedir dois meses e meio de teste para um efeito que a própria mudança dificilmente produziria de forma tão sutil.
Suponha que o teste rodou até 30.000 visitantes por variação e terminou com 750 pedidos no controle (2,50%, limiar R$ 199) contra 840 na variação (2,80%, limiar R$ 149). Rodando esses quatro números no mesmo motor de significância do blog: z = 2,29, valor-p ≈ 0,0222, com intervalo de confiança de 95% da diferença entre +0,04 e +0,56 ponto percentual, e melhora relativa observada de +12%. O intervalo não cruza zero, então o ganho de conversão é real.
O ganho de conversão paga o frete que a loja passou a absorver?
Essa é a segunda metade da conta, e é onde muitos testes de frete param cedo demais. Sobre as 30.000 visitas semanais, o ganho de 2,50% para 2,80% na conversão, com um ticket médio de R$ 210, gera R$ 18.900 de receita incremental por semana (30.000 × 0,003 × 210), pelo mesmo cálculo da calculadora de impacto de conversão do blog.
Agora a coluna de custo, que o painel de teste não mostra: baixar o limiar de R$ 199 para R$ 149 faz a loja bancar o frete de toda a faixa de pedidos entre esses dois valores, que antes pagavam envio. Se, no período, 900 pedidos caíram nessa faixa e o custo médio de envio absorvido foi R$ 24, são R$ 21.600 de custo adicional contra R$ 18.900 de receita incremental, e a variação vencedora em conversão é perdedora em resultado. Troque o custo médio de envio para R$ 15 e a conta inverte. Nenhum dos dois cenários aparece no gráfico de conversão, e é por isso que o custo de frete absorvido precisa entrar na leitura desde o desenho do teste, não na reunião seguinte.
Guardas obrigatórias
| Guarda | Por que monitorar | Sinal de alerta |
|---|---|---|
| Margem por pedido | O limiar mais baixo transfere o custo de envio para a loja | Conversão sobe e a margem cai o suficiente para anular o ganho |
| Ticket médio e mediana | Limiar alto empurra o carrinho para cima; limiar baixo solta ele para baixo | Média sobe e mediana fica igual: poucos pedidos grandes estão enganando a leitura |
| Custo de frete absorvido por pedido | É a coluna de custo que o teste cria | Custo por pedido cresce mais rápido que a receita incremental |
| Taxa de devolução | Compra por impulso para atingir o limiar volta com mais frequência | Devolução sobe na variação de limiar mais alto |
| Mix por região | No Brasil o custo de envio varia muito por região, e o mesmo limiar tem economias diferentes | Conversão sobe numa região e a margem afunda em outra |
A última linha merece atenção especial em lojas brasileiras: um limiar único aplicado ao país inteiro significa margens muito diferentes por região, e um teste lido só no agregado pode aprovar um limiar que é lucrativo no Sudeste e destrutivo no Norte. Declare os segmentos de leitura (região, faixa de ticket, novo x recorrente) antes de rodar, e trate qualquer recorte descoberto depois como hipótese para o próximo teste, não como conclusão. Esse é o mesmo cuidado que evita o paradoxo de Simpson, detalhado nos erros comuns de teste A/B.
Armadilhas específicas do teste de frete grátis
- Mudar o limiar no meio do teste. Parece inofensivo (“só ajustamos R$ 10”), e invalida tudo: os visitantes das primeiras semanas viram uma oferta diferente dos das últimas, dentro da mesma variação.
- Testar durante campanha promocional. Black Friday, cupom agressivo ou frete grátis promocional paralelo contaminam a comparação, porque o cliente já está vendo outra economia na tela.
- Ignorar quem já é recorrente. Cliente recorrente conhece o limiar antigo e reage à mudança de forma diferente de quem chega pela primeira vez. Se a base recorrente é grande, esse recorte precisa estar declarado.
- Ler o resultado só na primeira semana. O efeito no ticket médio aparece rápido; o efeito na recompra e na devolução aparece semanas depois, e é ele que decide se o limiar novo se sustenta.
- Confundir comunicação com economia. Testar a barra de progresso do carrinho é um teste de comunicação, sem custo de margem. Testar o valor do limiar é um teste de economia da oferta. Os dois são válidos, e misturar os dois na mesma variação impede saber qual dos dois causou o resultado.
Faça isso automático na Donnu
Um teste de frete grátis exige três coisas ao mesmo tempo: amostra suficiente para uma taxa base baixa, leitura pelo lucro por visitante em vez de pela conversão isolada, e um intervalo de confiança honesto em vez de um vencedor declarado no quarto dia.
A Donnu A/B entrega isso no seu site: snippet leve que não atrasa o carrinho, dimensionamento automático de amostra e estatística bayesiana sem inventar certeza. Comece um teste grátis de 14 dias e descubra o seu limiar com dados, em vez de copiar o número que o concorrente escolheu por intuição.
Leia também: Otimização de Checkout: o Playbook de Teste A/B · Teste A/B de Carrinho Abandonado · Teste A/B de Página de Produto
Referências
- Baymard Institute. Cart Abandonment Rate Statistics. Média de 50 estudos sobre abandono de carrinho e distribuição dos motivos de abandono, incluindo o peso dos custos extras. baymard.com/lists/cart-abandonment-rate.
- Baymard Institute. Checkout Usability Research. Base de problemas de usabilidade documentados em pesquisa de e-commerce em larga escala. baymard.com/research/checkout-usability.
- Kohavi, R., Tang, D. & Xu, Y. Trustworthy Online Controlled Experiments: A Practical Guide to A/B Testing. Cambridge University Press, 2020, sobre métricas de guarda e leitura de métricas com cauda longa. Material de apoio em experimentguide.com.
- Brasil. Código de Defesa do Consumidor (Lei 8.078/1990), artigo 31, sobre a obrigação de informação clara e correta sobre preço, o que inclui as condições da oferta de frete. planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8078compilado.htm.
Perguntas frequentes
- Qual é a métrica que decide um teste de limiar de frete grátis?
- Lucro por visitante, e não taxa de conversão. Um limiar mais baixo quase sempre converte melhor e quase sempre entrega menos margem por pedido, porque a loja passa a bancar o frete de carrinhos menores. Um limiar mais alto costuma elevar o ticket médio e derrubar a conversão. Como as duas métricas andam em direções opostas, só a combinação delas com o custo real de frete responde qual valor é melhor para o negócio. Use conversão e ticket médio como diagnóstico e lucro por visitante como veredito.
- Como escolher os valores candidatos de limiar para testar?
- Olhando a distribuição real dos valores de carrinho da sua loja, não escolhendo números redondos por intuição. Levante o histograma de valor de pedido dos últimos meses e identifique onde está a maior concentração; um limiar posicionado logo acima de uma faixa densa de carrinhos é o que tem mais chance de empurrar pedidos para cima sem afastar a maior parte da base. Testar 149 contra 199 quando quase todo carrinho fecha abaixo de 120 é queimar semanas de tráfego numa faixa onde quase ninguém está.
- Quanto tráfego um teste de frete grátis exige?
- Bastante, porque a taxa base de pedido é baixa. Com a matemática deste blog, uma loja que converte 2,5% e quer detectar uma melhora relativa de 10% precisa de cerca de 64.199 visitantes por variação. Mirando 15% relativo, o requisito cai para cerca de 29.193 por variação, o que com 30.000 visitas semanais fecha em torno de 14 dias. Como o efeito no ticket médio costuma ser maior e mais rápido de detectar que o efeito na conversão, muitas lojas leem o ticket antes e ainda assim precisam esperar a amostra completa para decidir.
- Frete grátis para todo mundo é uma boa ideia?
- Depende inteiramente da margem e do custo médio de envio, e é justamente por isso que vale testar em vez de decidir por intuição. Frete grátis sem limiar remove o principal motivo declarado de abandono e ao mesmo tempo elimina o incentivo para o cliente aumentar o carrinho, além de fazer a loja bancar o envio de pedidos pequenos, que costumam ser os de pior margem. É uma hipótese legítima de teste, desde que entre no experimento com guarda de margem por pedido, não só de conversão.
- Posso usar a calculadora de significância para comparar ticket médio entre variações?
- Não diretamente. A calculadora de significância deste blog aplica um teste de duas proporções, feito para comparar taxas (quantos de quantos converteram). Ticket médio e receita por visitante são médias de valores contínuos, com distribuição assimétrica e cauda longa, e exigem outro tratamento estatístico, como um teste para médias ou reamostragem. Use o teste de proporção para a conversão e trate a diferença de ticket com a cautela de quem sabe que poucos pedidos grandes podem mover a média sozinhos.