Estatística

Poder Observado: a conta que não responde nada

Poder observado depois do teste é só o valor-p reescrito. Por que a conta não informa nada sobre um teste A/B sem significância e o que olhar no lugar.

Ilustração plana de uma curva espessa descendo até encostar numa linha de base horizontal, em tons de verde profundo sobre fundo verde menta

O poder observado, calculado depois do teste com o efeito que apareceu, não acrescenta nada à leitura do resultado, porque ele é uma função um para um do valor-p: mesmo número, outra roupa. No teste trabalhado deste artigo, com valor-p de 0,4360, o poder observado é 11,88 por cento, e esse 11,88 por cento é consequência aritmética do 0,4360, não uma informação nova sobre o experimento. Este guia mostra a conta que prova isso, o paradoxo lógico que ela produz e o que perguntar no lugar. Faz parte do nosso guia completo de teste A/B e é o par direto do teste de equivalência, que é a forma correta de sustentar um empate.

De onde vem a tentação

O roteiro é sempre o mesmo. O teste termina sem significância, alguém pergunta se a hipótese está morta, e um analista bem-intencionado recalcula o poder usando o efeito observado. Se der baixo, a conclusão é “o teste era fraco demais, precisamos de mais tráfego”. Se der alto, a conclusão é “o teste era forte e mesmo assim não achou nada, então não existe efeito”.

A segunda leitura é a perigosa, e é justamente a que Hoenig e Heisey desmontam. Eles resumem o argumento dos defensores da prática: existiria evidência a favor da nula quando a significância não é alcançada apesar de o poder calculado no efeito observado ser alto. E então mostram que essa conta nunca pode cumprir o que promete.

O poder observado é o valor-p reescrito

A demonstração de Hoenig e Heisey é analítica: para qualquer teste, o poder observado é uma função um para um do valor-p. Os dois saem da mesma distribuição, e o poder observado sai dela fixando o parâmetro na estatística observada, o que o torna completamente determinado pelo valor-p.

Dá para ver isso rodando a conta. Fixe um teste com base de 3 por cento e 25.000 visitantes por variação, e varie só o número de conversões da variação:

conversões na variação taxa da variação z valor-p poder observado
750 3,000 por cento 0,0000 1,00000 0,05000
765 3,060 por cento 0,3914 0,69554 0,05837
780 3,120 por cento 0,7790 0,43599 0,11880
795 3,180 por cento 1,1630 0,24485 0,21272
810 3,240 por cento 1,5434 0,12274 0,33849
825 3,300 por cento 1,9203 0,05482 0,48418
840 3,360 por cento 2,2938 0,02180 0,63077
855 3,420 por cento 2,6640 0,00772 0,75931
870 3,480 por cento 3,0309 0,00244 0,85793

Percorrendo as conversões de 751 até 900 uma a uma, a relação é monótona sem exceção: sempre que o valor-p cai, o poder observado sobe. A única quebra está na linha do empate perfeito, e ela é de implementação, não de estatística: com diferença exatamente zero, a função do nosso motor devolve o próprio alfa (0,05) por convenção, enquanto uma conversão de diferença (751) já devolve 0,0266.

Poder observado como função do valor-pGráfico de linha com o valor-p no eixo horizontal, de zero a um, e o poder observado no eixo vertical, de zero a um. A curva começa alta à esquerda, perto de 0,86 de poder quando o valor-p é quase zero, e cai rapidamente: passa por volta de 0,48 de poder quando o valor-p está em 0,055, chega a 0,21 quando o valor-p é 0,24 e se achata perto de 0,03 quando o valor-p passa de 0,97. Uma linha tracejada vertical marca o valor-p de 0,05 e cruza a curva perto da altura de meio poder. A curva é estritamente decrescente, o que mostra que cada valor-p corresponde a um único poder observado.Cada valor-p corresponde a um poder observado, e só a elevalor-p0,00,51,00,00,51,0poder observadovalor-p = 0,05poder observado perto de 0,5o teste deste artigo: p 0,4360 e poder 0,1188
Poder observado contra valor-p, com base de 3 por cento e 25.000 visitantes por variação. A curva desce sem exceção: o poder observado não carrega informação que o valor-p já não tenha dado.

Hoenig e Heisey registram os dois pontos que essa curva torna visíveis. Primeiro, um caso especial elegante: quando o valor-p é igual ao alfa, o poder observado é 0,5 no teste z unilateral, e um pouco maior que 0,5 no bicaudal. Nossa curva cai na mesma vizinhança: na linha mais próxima do alfa, com valor-p de 0,05482, o poder observado é 0,48418, logo abaixo de meio. Segundo, e mais importante: valores-p não significantes sempre correspondem a poderes observados baixos. Não existe o cenário que os defensores da prática imaginam, o de um resultado sem significância com poder observado alto.

O paradoxo do poder

O golpe final do artigo é lógico, não numérico. Considere dois testes que não rejeitaram a nula, com o mesmo tamanho de amostra. Quem usa poder observado leria o de maior poder como evidência mais forte a favor da nula: se o teste era forte e mesmo assim não achou nada, a nula deve ser verdadeira.

Só que poder observado maior implica estatística de teste maior, ou seja, valor-p menor, e valor-p menor é, pelo padrão usual, evidência mais forte contra a nula. Hoenig e Heisey chamam isso de paradoxo da abordagem do poder: poder observado mais alto não implica evidência mais forte a favor de uma nula que não foi rejeitada.

Os números do nosso cenário deixam a contradição concreta. Dois testes, ambos com 25.000 visitantes por variação e ambos sem significância:

teste conversões (controle contra variação) valor-p poder observado intervalo de 95 por cento da diferença
A 750 contra 795 0,24485 0,21272 de -0,123 a +0,483 pp
B 750 contra 762 0,75399 0,04982 de -0,252 a +0,348 pp

Pela leitura do poder observado, o teste A (poder quatro vezes maior) seria a evidência mais forte de que não existe efeito. Pela leitura do valor-p, o teste A é o que está mais perto de detectar um efeito. Os dois não podem estar certos, e o que está certo é o valor-p: o poder observado só reembalou a mesma informação e trocou o sinal da conclusão.

Repare também na coluna dos intervalos: os dois têm praticamente a mesma largura, 0,607 e 0,600 ponto percentual, porque a precisão é governada pelo tamanho de amostra e quase não depende do resultado. É a precisão, e não o poder observado, que responde de quanto foi o experimento.

O teste trabalhado, lido de três maneiras

O caso concreto: 25.000 visitantes por variação, 750 conversões no controle (3,0000 por cento) e 780 na variação (3,1200 por cento), um ganho relativo aparente de 4 por cento.

Calculadora de significância estatística
Controle (A)
Variação (B)
Controle (A) · Taxa-
Variação (B) · Taxa-
Melhora relativa-
valor-p-
IC 95% da diferença-

Teste z bilateral de duas proporções. "Sem significância" quase sempre quer dizer que falta amostra, não que as versões são iguais.

Colando esses números na calculadora acima: z de 0,7790, valor-p de 0,4360, intervalo de 95 por cento da diferença de menos 0,1819 a mais 0,4219 ponto percentual. Sem significância.

Leitura 1, a inútil. O poder observado no efeito de 4 por cento relativo é 0,1188. A frase que sai daí (“o teste teve só 12 por cento de poder”) soa informativa e não é: ela é o 0,4360 dito de outro jeito.

Leitura 2, a correta sobre o desenho. Com 25.000 por variação e base de 3 por cento, o efeito mínimo detectável a 95 por cento de confiança e 80 por cento de poder é 0,4275 ponto percentual, ou 14,25 por cento em termos relativos. Ou seja: o teste foi desenhado para enxergar ganhos de 14 por cento ou mais e nada abaixo disso. Se a hipótese valia um ganho de 5 por cento, o experimento nunca teve chance, e isso já se sabia antes de começar.

Leitura 3, a correta sobre o resultado. O intervalo de 95 por cento vai de menos 0,18 a mais 0,42 ponto percentual. Ele descarta ganhos acima de meio ponto e perdas maiores que um quinto de ponto, e continua compatível com um ganho real de um terço de ponto, que numa base de 3 por cento é um ganho relativo de 11 por cento, provavelmente relevante para o negócio. A conclusão honesta não é “não funciona”, é “não sabemos, e este teste não tinha como saber”.

Para dimensionar o próximo passo: detectar com 80 por cento de poder um efeito do tamanho do que apareceu (mais 4 por cento relativo) exigiria 323.369 visitantes por variação. Detectar o efeito planejado de mais 8 por cento exigiria 82.376. O teste rodou com 25.000.

O que cada pergunta responde depois de um teste sem significânciaDiagrama com três blocos empilhados. O primeiro bloco, marcado como pergunta inútil, contém a frase sobre poder observado e a nota de que ela é o valor-p reescrito. O segundo bloco, marcado como pergunta sobre o desenho, contém o efeito mínimo detectável de 0,4275 ponto percentual e a nota de que ele era conhecido antes do teste começar. O terceiro bloco, marcado como pergunta sobre o resultado, contém o intervalo de confiança de menos 0,18 a mais 0,42 ponto percentual e a nota de que ele lista os valores que os dados não descartam.Três perguntas sobre o mesmo teste sem significânciaPergunta inútil: qual era o poder, dado o efeito observado?Resposta 0,1188, que é o valor-p 0,4360 reescrito. Nenhuma informação nova.Pergunta sobre o desenho: que efeito este teste conseguia enxergar?Efeito mínimo detectável de 0,4275 pp, ou 14,25 por cento relativo. Sabido antes de começar.Pergunta sobre o resultado: que valores os dados não descartam?Intervalo de 95 por cento de -0,18 a +0,42 pp. Ganhos acima de meio ponto estão fora.
A mesma peça de dados responde bem duas perguntas e mal uma. A do poder observado é a única que não acrescenta nada.

O erro tem uma versão sofisticada

Hoenig e Heisey também derrubam a variante que parece mais rigorosa: a do “efeito detectável”. A prática consiste em, depois de um teste sem significância, calcular qual efeito verdadeiro teria dado, digamos, 90 por cento de poder, e tratar esse número como um limite superior para o efeito real, porque a natureza dificilmente estaria numa região de poder tão alto sem que a significância aparecesse.

Os autores mostram que essa abordagem sofre do mesmo paradoxo, e ilustram com um exemplo que vale reproduzir. Numa amostra grande com média de 2 e erro-padrão da média de 1,0255, a região crítica bicaudal começa em 2,01, então a nula não é rejeitada; o intervalo de 95 por cento vai de menos 0,01 a 4,01, ou seja, o valor 4 não é refutado pelos dados. Ainda assim, o poder pós-teste calculado supondo média verdadeira igual a 4 dá cerca de 0,974, o que sugeriria que 4 é improvável. As duas leituras se contradizem, e a que está errada é a do poder.

A conclusão dos autores é curta: uma vez que o intervalo de confiança foi construído, cálculos de poder não trazem nenhuma informação adicional.

Poder serve para desenhar, não para interpretar

Nada disso torna o poder estatístico inútil. Ele é indispensável antes do teste, quando ainda dá para mudar o desenho. Greenland e coautores colocam a fronteira exatamente aí: cálculos de poder feitos antes do estudo não medem a compatibilidade das alternativas com os dados que vieram, e o poder calculado a partir dos dados observados é uma transformação direta do valor-p da nula, então não testa alternativa nenhuma.

Os mesmos autores catalogam duas leituras erradas que aparecem toda semana em reunião de resultado. A primeira: aceitar a nula porque o valor-p passou de 0,05 e afirmar que, com 90 por cento de poder, a chance de erro é 10 por cento. Não é: se a nula é falsa e você a aceitou, a chance de erro é 100 por cento, e se ela é verdadeira, é zero; os 10 por cento descrevem apenas a frequência do erro ao longo de muitos usos do teste, sob aquela alternativa específica. A segunda: concluir que o resultado apoia a nula sobre a alternativa porque o valor-p passou de 0,05 e o poder contra a alternativa era 90 por cento. Os autores mostram que é fácil construir contraexemplos com valor-p da nula entre 0,05 e 0,10 e alternativas cujo próprio valor-p passa de 0,10 com poder de 0,90.

Para o que o poder serve de verdade, os mesmos autores dão o melhor exemplo prático: entender por que a replicação falha tanto. Se a alternativa é correta e dois estudos têm poder real de 80 por cento, a chance de os dois darem significância é, no melhor caso, 0,80 vezes 0,80, ou seja 64 por cento, e a chance de um dar e o outro não, o cenário que vira “resultados conflitantes” na conversa, é 2 vezes 0,80 vezes 0,20, ou seja 32 por cento, aproximadamente uma em cada três repetições. Isso é uma consequência do desenho, não uma anomalia dos dados.

Erros comuns

Faça isso automático na Donnu

O poder observado sobrevive porque o relatório padrão da maioria das ferramentas termina no carimbo de significância, e quando o carimbo é negativo a equipe fica sem número para conversar. Aí alguém inventa um.

Na Donnu, o relatório de todo experimento traz o intervalo da diferença junto do efeito e o efeito mínimo detectável que o desenho comportava, os dois desde o primeiro dia, para que um resultado sem significância seja lido pela precisão e não por um poder recalculado depois. Se quiser refazer qualquer conta, a calculadora de significância devolve valor-p e intervalo de qualquer par de grupos, a calculadora de poder estatístico mostra o poder do desenho contra o efeito que você declarar e a calculadora de MDE diz qual era o menor efeito visível para o tráfego que você tinha.

Referências

Leia também: Teste de equivalência · Efeito mínimo detectável · Significância estatística em teste A/B · Quantos visitantes um teste A/B precisa · Calculadora de poder estatístico · Read in English

Perguntas frequentes

O que é poder observado num teste A/B?
É o poder estatístico recalculado depois do teste terminar, usando o efeito que foi observado no lugar do efeito que tinha sido planejado. A ideia por trás dele é responder à pergunta "meu teste tinha chance de enxergar isso?" olhando o resultado. O problema é que a conta não traz informação nova: Hoenig e Heisey mostram que o poder observado é uma função um para um do valor-p, ou seja, é o mesmo número escrito de outro jeito.
Por que o poder observado não prova que não existe efeito?
Porque valor-p alto sempre produz poder observado baixo, e valor-p baixo sempre produz poder observado alto. Segundo Hoenig e Heisey, resultados não significantes correspondem sempre a poderes observados baixos, e no caso em que o valor-p é igual ao alfa o poder observado fica em torno de 0,5. Como o poder observado é determinado pelo valor-p, calculá-lo depois de ver o valor-p não muda nada na interpretação.
O que é o paradoxo do poder?
É a contradição lógica que Hoenig e Heisey batizaram de paradoxo da abordagem do poder. Entre dois testes que não rejeitaram a nula, quem defende o poder observado leria o de maior poder observado como evidência mais forte a favor da nula. Só que poder observado maior significa estatística de teste maior, ou seja, valor-p menor, que pelo padrão usual é evidência mais forte CONTRA a nula. A mesma peça de dados não pode apoiar mais os dois lados ao mesmo tempo.
O que olhar em vez do poder observado?
O intervalo de confiança da diferença e o efeito mínimo detectável do desenho. O intervalo responde diretamente quais valores os dados não descartam. O efeito mínimo detectável responde qual era o menor efeito que aquele teste tinha chance real de encontrar. Hoenig e Heisey concluem exatamente nessa direção: dentro do arcabouço frequentista, a leitura correta se faz com intervalos de confiança, escolha adequada da hipótese nula e teste de equivalência.
Poder estatístico é inútil, então?
Não. Poder é indispensável ANTES do teste, para escolher o tamanho de amostra. O que não funciona é usá-lo DEPOIS para interpretar o resultado. Greenland e coautores colocam a fronteira no mesmo lugar: apesar das limitações para interpretar dados já coletados, o poder é útil para desenhar estudos e para entender por que a replicação de um resultado significante falha com frequência mesmo em condições ideais.
Um teste sem significância significa que não devo mexer mais nessa hipótese?
Depende inteiramente da largura do intervalo, não do valor-p. No exemplo trabalhado deste artigo, o intervalo de 95 por cento da diferença vai de menos 0,18 a mais 0,42 ponto percentual: ele descarta ganhos maiores que meio ponto, mas continua compatível com um ganho relevante de um terço de ponto. Chamar isso de "não funciona" é ler no resultado uma precisão que ele não tem.